• Matt Roper

QUANDO A MÍDIA DIZ QUE CRIANÇA PODE SER PROSTITUTA

Updated: Apr 5, 2018

A notícia foi trágica: uma criança de 12 anos, achada morta num matagal perto de uma rodovia no Acre.


Pelo que sabemos a vida da pequena Luzivania também era trágica: saiu de casa depois que a mãe foi presa, foi morar sozinha na casa de uma amiga, estava desamparada e vulnerável.


Hoje pela manhã, porém, o site G1 da Globo público uma matéria sobre o caso: GAROTA DE 12 ANOS MORTA EM ESTRADA NO ACRE ERA GAROTA DE PROGRAMA.


Como a Globo é o maior veículo brasileiro de notícias, e o ponto de partida para jornais e portais em todo o país, a notícia foi repetida e reproduzida em todo o Brasil (foi tarde demais quando corrigiram no final da tarde para "explorada sexualmente").



A irresponsabilidade da Globo - uma grande formadora de opiniões no país - em publicar este manchete é de tirar o fôlego.


Nenhuma criança é 'garota de programa'. Toda criança que acaba no mundo adulto de exploração sexual é vítima. E muitas vezes os seus gritos de socorro são silenciados e os direitos ignorados.


O fato que algum jornalista, seguido por muitos outros, achou aceitável etiquetar esta pequena vítima como 'garota de programa' revela muito sobre a cultura de exploração sexual que está enraizada no Brasil.


Onde uma menina de 12 anos pode escolher ser prostituta - e assim é legitimido o abuso e estupro dela por homens.


Onde uma criança 'prostituta' tem menos valor, fazendo com que a tragédia da sua morte violenta vire muito menos trágica (e livrando a polícia das suas responsabilidades em achar o assassino - "ela era só uma garota de programa").


Veja o comentário do delegado responsável pelo caso:

É mais um exemplo da normalização e legitimação da exploração sexual infantil que vemos o ouvimos todos os dias, não só em comunidades carentes ou entre pessoas sem acesso ao estudo, mas também de instituições e autoridades mais altas e respeitadas.


Como, em 2013, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu um homem de 79 anos da acusação de estupro de uma menina de 13 anos - por que ela era 'prostituta'.


O acusado, um fazendeiro, foi pego em flagrante abusando duas crianças, de 13 e 14 anos, mas foi inocentado porque os desembargadores entenderam que elas eram 'garotas de programa' e não vítimas inocentes.


Também, em 2012, quando O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a absolvição de um homem acusado de praticar estupro contra três menores, todas de 12 anos.


No entendimento da relatora, ministra Maria Thereza de Assis Moura, as meninas já se prostituíam antes do crime, e "já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo".


Ou seja, se a criança é 'prostituta' não é mais criança, e pode ser comprada e usada, abusada sem punição.

São casos, comentários, matérias que sutilmente desvalorizem a menina vítima, assim diluindo a gravidade deste crime, aumentando a impunidade, encorajando os abusadores, e fazendo mais vítimas.


Precisamos clamar pelo fim desta cultura que diz que criança pode ser prostituta.
















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