• Matt Roper

FUNK, E UMA ISOLADA ILHA NO OCEANO PACÍFICO


Em 1999 um escândalo de pedofilia abalou a pequena ilha de Picairn, uma colônia britânica com apenas 47 habitantes, localizada no meio do oceano Pacífico.


Sete homens - cerca de metade da população masculina - foram acusados de habitualmente manter relações sexuais com meninas de até 12 anos. Entre eles era o próprio prefeito da ilha.


Picairn foi fundado em 1790 por insurgentes que tomaram o controle do navio britânico HMS Bounty e foram parar na ilha no meio de caminho entre Nova Zelândia e Peru. É uma das sociedades mais isoladas do mundo, onde cresceu uma cultura desconectado e distinto.


E foi exatamente isso que os homens acusados do crime de pedofilia usaram em sua defesa. Que em Pitcairn, sexo precoce fazia parte da cultura da ilha há séculos. "É preconceito e discriminação achar que somo errados só porque seus valores são diferentes", disseram.


O argumento não colou. Em 2004, julgados por uma corte em Nova Zelândia, seis dos sete homens foram condenados e presos.

Ou seja, a justiça entendeu que, só porque um certo comportamento faz parte de uma cultura não o justifica ou legitima, principalmente quando as vítimas são crianças que tem suas infâncias violentamente interrompidas.


No Brasil, música funk é definida como uma cultura, e protegida de discriminação por lei, desde 2013. No Rio de Janeiro o funk é considerado patrimônio cultural desde 2009.


E como todas as culturas, funk no Brasil tem muito que deveria ser valorizado e protegido.

Como a cultura hip hop dos EUA, surgiu dos gritos dos marginalizados, dando espaço e voz a jovens desfavorecidos de periferias e favelas.


Além disso não se pode negar a popularidade deste ritmo, que já alcançou todo o Brasil e virou uma das maiores fenômenos em massa do país.


Mas, como na ilha de Pitcairn, existe uma parte podre desta cultura - a parte que exalta a pedofilia, a pornografia infantil e a violência contra mulheres, e que sem dúvidas já deixou um rastro de vítimas.


Vejam algumas letras de músicas funk:


Não esqueço é das novinha, esquece as velhas de peito caido olha eu vou te dar o papo, o Digão ve se me escuta

Ve se larga essas velhas, velha da perereca murcha, mas eu vou te dar o papo tranquilão não faço pose, que se dane as de 37 eu prefiro as de 14

Pega as novinhas de 14, abre a xerequinha que nós mete...

14 e 37, Mc Didô


Vem a loira a morena, mais tem que ser novinha nois dois é de menor, e não tem pedofilia

17 16, vem de 15 e 14 não posso me esquecer as de 13 e as de 12

Novinha Safada, Mc Kelvin


É melhor não faltar com respeito..

Que eu te deixo esticada no chão

Dou tiro na sua mão e quebro suas pernas

Eu vou te levar pro microondas, mas antes eu rasgo seu corpo na bala

Pra família te reconhecer, só mesmo no exame da arcada dentária.

Novinha, Mc Martinho


Se comentários como esses fossem expressados em sites na internet, em jornais, na TV, ou em qualquer outro espaço público, os autores tornaria alvos de protestos e até investigações policiais. Mas como faz parte da cultura funk, muitos tem receio de vocalizar qualquer crítica, por ser acusados de "preconceito e discriminação".


Nós quem trabalhamos diariamente com meninas em situações de risco e vulnerabilidade sabemos muito bem como a erotização infantil, e a normalização de pedofilia na sociedade brasileira, tem destruído vidas, fortalecendo os abusadores. E como o funk, que já virou a maior expressão cultural entre elas, é o mais culpável por viralizar a idéia que a corrupção sexual de crianças não é problema, muito menos crime.


Como na ilha Pitcairn, não podemos deixar que o argumento que "faz parte da cultura" nos deixe calados e impotentes.










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